A Importância da Figura Paterna na Leitura e na Escrita

por Cláudia Manrique

Durante algum tempo, a psicologia do desenvolvimento foi quase omissa, em relação ao pai, enquanto uma importância marcada às relações mãe-criança, modelo inicial sobre o qual se apoiaria todo o desenvolvimento posterior. O que não deixa de ser válido. Só que teorias mais atuais admitem a inclusão e a necessidade desta inclusão desde o princípio, deste 3o. elemento que é representado e atuado pelo pai. Essa relação é necessária desde o nascimento.

Quando a criança nasce, não tem identidade física ou psíquica definida, é um continuum materno, um prolongamento da mãe, um ser que mal sente, mal vê, não fala. Pouco a pouco, os sentidos vão se desenvolvendo, amadurecendo, criando definições, e percepções mais organizadas. A criança, neste período, é intensamente dependente, inseparável da mãe.

Aí então faz-se necessário a função paterna, que provoca um corte nesse cordão umbilical psíquico; uma ruptura simbólica entre mãe e filho. A satisfação das suas necessidades não é automática, como no útero: passa a existir um tempo, uma distância. Nessas brechas, nessa falta da mãe, a criança está só diante do mundo externo. E do mundo vem a figura do pai.

E através dele, no espaço onde ele se insere, introduz-se o primeiro esboço de um tempo, de uma cronologia, de uma ordem. O pai propicia a introdução de uma organização, de uma discriminação, que é a ordem do mundo. O pai é aquele que promove o rompimento da simbiose com a mãe, o vínculo onde não há duas pessoas, mas apenas uma indiferenciação. O pai torna viável a possibilidade de um tempo e um espaço entre a mãe e o filho, e assim lhe confere a possibilidade de tornar-se sujeito, com uma identidade, no mundo real.

Tudo o que leva a criança a se diferenciar da mãe, a ter emoções e experiências, que reconhece como suas, tudo isso, é fruto dessa presença, que chamamos figura paterna. Que pode ser um tio, um professor, um padrinho. Ou pode ser a própria mãe que contém em si - e demonstra - desejo de dar liberdade à criança, vontade de que o filho seja diferente dela.

O pai que fica longe, do lado de fora, contribuirá para criar filhos muito dependentes da mãe, com muita dificuldade para enfrentar, futuramente, uma autoridade. Quanto mais houver oportunidade de se estabelecer, entre o pai e os filhos, um grande afeto, menos pesará essa falta, inevitável, que todo ser humano carrega dentro de si, e tanto menor será a dor da perda desta relação primeira e total, que é a relação mãe-filho.

O ser humano convive, inevitavelmente, com a divisão de si mesmo, com uma ruptura, que carrega consigo, e o faz humano. A título ilustrativo, quando o pai volta a solicitar a mãe como mulher, depois do nascimento da criança, convém que ela aja como sua mulher, que se sinta sua esposa, independente da maternidade. A relação marido-mulher exclui a criança. E a exclusão é benéfica para ela, na medida em que lhe permite existir sozinha, criando um espaço interior individual. O relacionamento do casal, portanto, é útil para identidade da mãe e do bebê. Evita que a mãe tenda a reforçar um vínculo ideal, completo, com o filho.

Quando o pai é uma figura fraca e a mãe envolvente, totalizadora, é extremamente comum o filho vir a ter problemas de aprendizagem em relação a leitura e escrita. Porque a leitura, a palavra, é um símbolo. E símbolo pode ser definido como aquilo que faz presente o ausente. Se a criança não aprende a usar o símbolo, é porque não suporta o contato com essa ausência, ou porque a ausência é excessiva. Não carrega dentro de si, uma marca substitutiva e suavizada dessa ausência, não tem uma boa figura do pai.

De outra forma, a criança que lança seu desenho sobre o papel está representando ao mesmo tempo o laço e a separação. A criança revive aí a separação com a mãe, separação e reencontro: o traço se separa do corpo da criança, mas se reencontra em seu olhar. É como se ela perdesse algo que reaparece sobre a folha de papel, eternizando aquele traço.

Assim, se encontra atuando na atividade gráfica, na medida em que ela produz um traço entregue ao olhar, toda uma dialética muito específica ao redor da separação e da individuação, e do narcisismo, já que se trata da sua produção, de algo que ela fez, sua criatividade. Fala-se também, da dimensão auto erótica e da autonomia psíquica.

Escrever, com efeito, é sempre jogar com a ausência, compor com a ausência. Escreve-se sempre para um ausente. Com seus primeiros escritos a criança aprende a dominar essa falta.

BIBLIOGRAFIAS CONSULTADAS

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